5 que aprendi com Michael Scott e a equipe da série The Office

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Data Estelar: -302598.4

Para quem não conhece The Office é uma série de comédia do canal NBC. A série é uma adaptação da versão britânica, estrelada por Ricky Gervais e mostra o dia a dia da Filial da empresa Dunder Mifflin localizada em Scranton.

O programa é o que eu costumo chamar de comédia de vergonha alheia, sabe aquele momento do filme que você se sente envergonhado(a) por alguma atitude do personagem? Na série isso acontece em quase todos os episódios. (na verdade acho que só para de acontecer porque você se acostuma com o sentimento).

Michael é o gerente da filial e ele se comporta como uma criança na maior parte do tempo. Ele não gosta de fazer o trabalho de escritório, vive brincando, quer a atenção de todos sempre e normalmente acaba fazendo alguma besteira que poderia colocar a operação em risco. 

Com essas qualidades fica até difícil defender ele, mas acontece que no decorrer da série ele tem momentos de “lucidez” em meio a sua loucura diária e acaba nos dando algumas lições sobre gestão e vendas. Eu realmente quero focar nesses momentos, pois no dia a dia talvez não sejam tão grandiosos, no entanto são momentos que fazem a diferença para a equipe.

Atenção: teremos vários spoliers nesse conteúdo

1 – Caos criativo

Não me entenda mal, eu realmente gosto de ordem e acho que o caos tem uma medida certa dentro de qualquer empresas.(uma coisa é o caos eventual outra é viver no caos). O que acontece na filial de Scranton é que Michael tira sua equipe da zona de conforto constantemente.

Ele cria situações novas, fala besteiras, faz discursos e treinamentos horríveis. Isso significa que a equipe dele sempre tem que lidar com o inesperado. Apesar de conhecerem algumas das rotinas do chefe eles nunca sabem exatamente o que ele vai fazer. (e se começarem a descobrir ele dá um jeito de mudar assim que percebe). 

As rotinas da equipe acabam ficando para trás, mas sempre em um nível que é possível ser recuperado. Como eu disse antes, eu gosto de planejar as atividades e saber quais os próximos passos, mas essa não é uma constante do mercado e é preciso estar preparado para essa inconstância. 

Por mais excêntrico que o ambiente pareça a validade das ações do gestor estão em criar uma equipe capaz de inovar e que, em um mercado decadente, se prepara para mudanças bruscas. Pense em formas de trazer um pouco de excentricidade para o dia a dia, faça testes e busque soluções inovadoras, aprenda a fazer brainstormings (muitos não sabem como) e ouça a equipe. Mas sempre, sempre respeite a individualidade de cada um. 

2 – Mudanças culturais não podem ser bruscas

A cultura organizacional é o que faz as pessoas se identificarem com o ambiente em que estão. Ela é resultado da identidade organizacional, da equipe, do clima, mercado etc. Ela surge junto com a organização, mas muda constantemente. Os novos colaboradores trazem uma bagagem consigo e essa bagagem passa a fazer parte da cultura à medida que  pessoa interage com a equipe. 

Na filial da Dunder Mifflin gerenciada por Michael existe um comitê para planejamento de festas. Como toda criança Michael adora festa e adora comemorar com os amigos, por isso sempre existe motivo para celebrar. 

Na filial de Scranton os colaboradores sempre ganham uma festa de aniversário, com bolo e um tema. Em um episódio  Michael se ausenta e o Gerente Regional Assistente assume, Jim (teoricamente o cara coerente e correto da série) fica responsável pelo escritório e é cobrado pelo comitê pela festa que deveria acontecer. Ele então faz uma proposta audaciosa para poupar tempo: Por que não fazer apenas uma festa por mês para comemorar o aniversário de todos naquele período?

A mudança causa desagrado, os aniversariantes se sentem injustiçados, afinal os aniversariantes anteriores tiveram suas festas. O Plano é inviabilizado e no fim ele é forçado a voltar atrás, isso depois de um dia de incômodos e custos. No final do episódio, quando Michael volta, ele senta ao lado de Jim e ouve o desabafo. A resposta é: Eu já tentei isso.

Na posição de gerente, e mesmo gostando de festas, Michael já tinha tentado mudar a cultura da empresa e falhou. A cultura é um elemento delicado para as empresas e pessoas, por isso tem que ser tratado com profissionalismo e planejamento. Mudanças bruscas podem causar desconforto e mudanças na performance da equipe, até mesmo mudanças NA equipe. 

O certo aqui não é deixar a cultura como está e aceitar, mas sim planejar a mudança. A mudança dos aniversários poderia ser tratada como uma nova política depois da virada do ano, quando todos tivessem comemorando seus aniversários. Poderia passar a ser uma reunião informal após o trabalho, ou ainda poderia não mudar, pois o impacto na produtividade seria muito pequeno em comparação ao esforço. 

O que se deve ter em mente é que ações que resultam em impactos culturais devem ser planejadas e o ideal é ter uma equipe de RH (ou um responsável) cuidando da cultura desde o começo

3 – Negociação com base nos valores e nas necessidades do cliente

Antes de ser gerente Michael era vendedor e durante a série ele demonstra seus talentos em vários momentos. Seu talento fica muito claro quando, acompanhado da diretora regional, ele precisa fazer uma apresentação para um funcionário do governo responsável pela compra de materiais de escritório.

Para a surpresa da diretora Michael se prepara para passar um dia inteiro fora do escritório, marca a reunião em um bar informal e durante vários momentos ele para a reunião para pedir comida, beber e cantar. Estranho?

Ele canta junto com Christian, o funcionário do governo, brinca, conta piadas e basicamente se CONECTA com ele. 

Durante a reunião, a diretora tenta puxar o assunto da negociação e é cortada, se propõe a reduzir bruscamente os preços para conseguir a conta e graças o seu Gerente Regional não Consegue. 

Ao fim do episódio, Michael começa a sua abordagem, fala da disputa de preços entre fornecedores e como isso afeta a qualidade do serviço, como ele conseguiria dar mais atenção às necessidades da cidade, por ser um morador da região e por entender a sua realidade. 

Michael consegue um acordo muito mais lucrativo com uma redução de preço menor do que a proposta da diretora, que não conhecia a realidade da prefeitura ou mesmo da cidade, mas com a promessa de que a Dunder Mifflin daria a devida atenção às necessidades da cidade. 

Ao invés de tratar simplesmente como uma reunião chata de negócios, Michael se preparou para ter uma boa conversa com o seu cliente para se conectar e se preparou, entendendo suas necessidades. A proposta dele não se baseava no simples fato de ganhar a conta a qualquer custo, mas atender as necessidades do cliente de forma que os grandes concorrentes não poderiam fazer.

4 – As pessoas certas nos lugares certos

Michael tem seus problemas como gestor (vários), mas um dos pontos positivos dele é que ele gosta de pessoas (mesmo sendo preconceituoso). Michael pede demissão e um novo gerente assume seu posto. Charles Miner, interpretado por Idris Elba, é um profissional muito sério e dedicado, assume o cargo e começa a fazer mudanças no ambiente da Dunder Mifflin.

Além de tirar o mocinho, Jim, da sua zona de conforto e acreditar que Dwight (um completo maluco) é uma pessoa coerente. Charles decide mudar algumas posições na empresa, sendo duas mudanças mais significativas. Ele escolhe Kevin para ser recepcionista temporário e Stanley para ser supervisor de vendas. 

Bom vamos à situação para que fique claro. Kevin é um personagem adorável e completamente bobalhão. Ele é muito infantil, tem dificuldade de aprendizado e de fala. Em um dos episódios Michael explica que na verdade Kevin havia solicitado uma vaga na equipe do expedições (o que faria sentido), mas ele decidiu colocá-lo no time de contabilidade (sabe-se lá o porque).

Stanley por sua vez é relapso e preguiçoso, um senhor que perde mais tempo com palavras cruzadas do que com suas atividades diárias. Na verdade ele dá a entender que está próximo da sua aposentadoria e que já trabalhou demais na vida então, como o ambiente não o cobra ele simplesmente relaxa. Na série há um entendimento que a escolha se dá por questões raciais, como Charles e Stanley são negros, o gestor decide direcionar a supervisão sem analisar a situação como um todo (isso é o entendimento passado pela série, ok? Que é uma comédia, ok?). Fato que mais tarde ele começa a perceber. 

Tanto Michael como Charles cometem erros no direcionamento de pessoas, mas no geral foi Michael quem montou maior parte do time, e portanto tem o mérito de ter alocado os personagens colaboradores nas suas devidas posições.

A mensagem aqui é: Conheça sua equipe! Saiba seus pontos fortes e fracos. Se necessário faça testes comportamentais, ou pelo menos estude o tema. Existem metodologias científicas por trás dos testes como DISC, Eneagrama e o Sugerido pelo Instituto Galup.

Estude e descubra qual é o perfil de cada colaborador. Os perfis comportamentais não se referem a quem é melhor ou pior, mas eles permitem um direcionamento adequado de cada perfil ao tipo de atividade que ele irá executar.  E sempre, sempre, sempre use o bom senso.

5 – Um líder encorajador

Já falei aqui sobre liderança, e continuo afirmando que o Capitão Picard é o melhor modelo de líder que conheço, mas Michael tem seus momentos. No geral ele não executa muito bem suas funções, porém ele é capaz de se destacar e, por se importar com sua equipe como se fossem membros da sua família, ele não aceita ver alguém do time para baixo. 

Em mais de um momento durante toda a série, Michael Scott dá algumas lições (até quando não quer) incentivando a equipe, os fazendo mudar suas opiniões, levando um ou alguns deles a alcançar a respostas para algum problema e, principalmente, encorajando o seu time. 

Como quando Roy pede Pam em noivado e Jim conversa com Michael no navio. Ou quando depois de pedirem demissão, Pam entra em choque quando percebe ter deixado um emprego estável por uma “oportunidade maluca”. Nesses momentos Michael sempre parece que também vai perder o foco e se desesperar, mas quando vê um membro do seu time duvidando das suas competências, ele se recompõe, se posiciona e sempre apoia o pessoa. Ele conhece o time e sabe as qualidades de cada um e por isso ele sabe como alcançar eles quando é preciso.

Encorajar a equipe sempre fez parte das tarefas de um bom líder. Em momentos como o atual essa habilidade se torna cada vez mais necessária. Com a aceleração das tecnologias e o número crescente de profissionais no mercado, é normal que algumas pessoas duvidem das suas capacidades, tenham dúvidas sobre suas escolhas e suas ações. Um bom líder não é necessariamente quem vai resolver essa questão, mas é aquele que vai perceber  orientar, incentivar e acreditar no seu time.

Ele se preocupa genuinamente com as pessoas

A melhor filial

Quem viu a série sabe muito bem que a filial de Scranton quase foi fechada. Durante uma crise as filiais da empresa foram analisadas e algumas seriam fechadas e absorvidas por outras. Se o gerente de outro filial não tivesse pedido demissão, Scranton teria fechado e a série chegaria ao fim mais cedo.

A verdade é que durante toda a série a filial gerenciada por Michael parece estar a deriva, sem um rumo certo e por vezes parece prestes a fechar ou ter que mudar drasticamente para se manter. Em todos os momento Michael lutou pela filial e pela equipe.

Na série fica implícito que as pessoas que trabalham naquela filial aceitam o trabalhar ali pois precisam do salário. Mas sabemos que o salário sozinho não segura todo um grupo de colaboradores. 

É verdade que essa fosse a realidade de alguns, mas de modo geral vários membros da equipe eram competentes e poderiam facilmente conseguir outro emprego, mas não o faziam.

A filial de Scranton tinha uma equipe unida, que mesmo sob uma direção maluca conseguia fazer suas entregas e alcançar resultados. Como observador (e fã) eu diria que na verdade a Filial de Scranton da empresa Dunder Mifflin conseguiu encontrar a sua identidade e a equipe, por mais que dissesse o contrário se identificava com ela. 

Claro que havia absurdos, alguns colaboradores entraram no time e não se adaptaram. Existiam diversos problemas, mas quem nunca teve um chefe falando absurdos, criando estratégias que todos (menos ele) sabiam que iriam falhar ou que falou alguma asneira que deixou todos desconfortáveis? E quantos de nós permanecemos nesse lugar e construímos uma carreira lá?

A verdade é que na filial de Scranton, apesar de todos os absurdos, o time foi capaz de criar uma cultura na qual todos eram capazes de lidar com as suas tarefas e ainda compartilhar parte da sua identidade. 

Claro que alguns tentaram fazer parte dessa dinâmica e não conseguiram lidar e isso não significa que estavam errados, simplesmente não se adequaram aquela cultura. Esse é um fator normal e com o qual precisamos aprender a aceitar. 

Michael e o seu time conseguiram construir uma cultura forte o bastante para superar vários desafios ao longo dos anos e mais do que isso, para superar, até mesmo, a saída do próprio Michael.

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